
O Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou uma nova fase da Operação Sucata 0 km para desmantelar uma estrutura criminosa responsável pelo desvio de 54 veículos novos diretamente do pátio de uma montadora instalada em Anápolis. O prejuízo total provocado às finanças da empresa automobilística é estimado em R$ 8,7 milhões.
As equipes policiais e os promotores de Justiça cumpriram 12 mandados de busca e apreensão nos municípios paulistas de São Paulo e São Bernardo do Campo. Os locais vasculhados abrigavam estabelecimentos comerciais de sucatas, oficinas e residências de empresários apontados como os receptadores finais dos automóveis retirados irregularmente da indústria goiana.
A ação contou com o suporte operacional do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil do Estado de São Paulo e do Gaeco do Ministério Público de São Paulo (MPSP). Durante as buscas, as autoridades buscaram apreender peças, componentes em processo de desmonte e documentos operacionais.
As apurações desenvolvidas pelo Gaeco revelaram que a fraude começou a ser desenhada a partir da conduta de um ex-funcionário da própria montadora. Valiando-se do livre acesso aos sistemas de controle de estoque e da relação de confiança mantida na empresa, o investigado passou a emitir documentações fiscais falsas para liberar os veículos zero quilômetro sem o devido faturamento comercial.
Para dissimular a saída dos carros das dependências da fábrica em Anápolis, o suspeito utilizou a justificativa de remessa para industrialização por encomenda — procedimento regulamentar aplicado quando automóveis são encaminhados a empresas parceiras para a instalação de acessórios ou serviços de blindagem.
"O investigado criou um perfil falso atribuído a um suposto analista de marketing e enviou solicitações fraudulentas por e-mail. Os carros eram então liberados da fábrica e transportados para São Paulo." — Trecho do relatório de investigação do MPGO
Após serem liberados do pátio industrial em Anápolis, os veículos eram transportados até o estado de São Paulo, onde eram entregues a comerciantes do ramo de autopeças e ferros-velhos. Adquiridos por valores significativamente inferiores à cotação praticada no mercado formal, os carros tinham dois destinos principais no esquema.
Parte do lote de veículos zero quilômetro era mantida escondida em galpões e oficinas. O restante da frota desviada passava por um processo rápido de desmonte, tendo suas peças originais e conjuntos mecânicos anunciados para venda em lojas físicas do setor e em perfis de redes sociais.
Diante do conjunto de provas reunido ao longo do procedimento investigatório, o Gaeco do MPGO apresentou denúncia criminal formal perante a Vara Criminal de Anápolis. O ex-funcionário responsável pela emissão das notas falsas e os empresários que compraram os lotes irregulares foram denunciados pelos crimes de:
Associação criminosa
Furto mediante fraude
Abuso de confiança continuado
Receptação qualificada no exercício de atividade comercial
Paralelamente às ordens de busca, o Poder Judiciário decretou o sequestro e a indisponibilidade de bens móveis, imóveis e valores dos envolvidos. A ordem de bloqueio atingiu contas bancárias por meio da plataforma Sisbajud e impôs restrições de transferência em veículos pelo sistema Renajud.
O objetivo central da medida cautelar é indisponibilizar ativos financeiros e patrimoniais do grupo para garantir a futura reparação integral dos danos financeiros causados à fabricante instalada no município goiano.