
A ginecologista e obstetra Marcella Segato pronunciou-se publicamente após ter sido denunciada ao Ministério Público Federal (MPF) por manifestações em um grupo privado de mensagens instantâneas. No diálogo, a profissional sugeriu que pacientes internadas no Hospital e Maternidade Célia Câmara, localizado em Goiânia, não recebessem alta médica durante o fim de semana de votação, sob a justificativa de que a "maioria é petista".
Diante da forte repercussão do caso, a médica divulgou uma nota oficial em que pediu desculpas formais às pacientes, aos familiares, aos colegas de trabalho, aos estudantes de medicina e à própria instituição de saúde. Ela sustentou que as afirmações feitas no ambiente virtual não se converteram em atos práticos e assegurou que nenhum atendimento foi comprometido por questões ideológicas.
No documento de retratação, a profissional afirmou que o teor das conversas travadas no aplicativo destoou de sua conduta habitual na medicina. Contudo, defendeu que as liberações das pacientes seguiram estritamente o protocolo técnico da unidade sanitária, sem interferência de orientações partidárias.
"Lamento profundamente que minhas mensagens tenham destoado do compromisso que sempre orientou minha atuação profissional. Essas mensagens, porém, não se transformaram em conduta nem resultaram em procedimentos inadequados. Nenhuma paciente teve a alta atrasada ou negada. Todas foram avaliadas e liberadas exclusivamente por critérios clínicos, como sempre ocorreu", declarou a obstetra.
A médica acrescentou que desempenha a função de forma contínua há anos e que o voto é secreto e deve ser respeitado, sem qualquer tipo de retaliação. Ela pontuou que realiza partos desde 2017 e que já prestou atendimento a milhares de mulheres com formações, origens e ideologias diversas ao longo de sua trajetória profissional.
A Prefeitura de Goiânia, por intermédio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e da administração do Hospital e Maternidade Célia Câmara, emitiu uma nota oficial lamentando o ocorrido e apresentando desculpas aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A gestão municipal enfatizou que o hospital pauta suas ações na impessoalidade e na assistência técnica, e que as declarações da profissional representam opiniões pessoais emitidas em um espaço privado, sem qualquer vínculo com a diretoria do complexo.
"O Hospital ressalta, ainda, que manifestações ou preferências políticas de caráter pessoal não se confundem com as condutas médicas e assistenciais adotadas na unidade. Decisões relativas à internação, permanência hospitalar e alta devem observar exclusivamente critérios clínicos, técnicos, éticos e de segurança do paciente, independentemente de qualquer convicção política", destacou a nota oficial da instituição.
A Secretaria de Saúde informou que instaurou procedimentos administrativos para investigar o contexto e a veracidade dos fatos. A apuração observará os direitos ao contraditório e à ampla defesa, prevendo a adoção de medidas disciplinares cabíveis caso fique demonstrado descumprimento dos deveres éticos institucionais.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) também se manifestou sobre a denúncia contra a ginecologista. Em nota oficial, o órgão regulador explicou que tomou conhecimento das alegações e que abriu os trâmites formais de fiscalização do exercício profissional.
O conselho ressaltou que todas as representações recebidas referentes à conduta de médicos são investigadas e tramitam sob sigilo processual estrito, em conformidade com as regras do Código de Processo Ético-Profissional Médico. A autarquia também formalizou um pedido de esclarecimentos ao responsável técnico do Hospital e Maternidade Célia Câmara sobre os fatos relatados.