Quinta, 03 de Setembro de 2026

Delegado afastado nega envolvimento em esquema de desvio de cargas apreendidas em Goiânia

Alexandre Bruno alega ter alertado superiores sobre falta de espaço para armazenamento e nega ter recebido propina de empresário

Por: Cleyber Carlos
03/09/2026 às 12h14
Delegado afastado nega envolvimento em esquema de desvio de cargas apreendidas em Goiânia

O delegado de Polícia Civil Alexandre Bruno de Barros, afastado do cargo por suspeita de integrar um esquema de desvio de cargas apreendidas em operações, negou qualquer conhecimento ou participação nas irregularidades investigadas pelo Ministério Público de Goiás (MPGO). Os desvios teriam ocorrido durante o período em que ele esteve à frente da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas (Decar), em Goiânia.

Além do titular da especializada, a Justiça determinou o afastamento cautelar do escrivão Sílvio Pereira de Macedo e do policial civil Antônio Gomes de Assis Sobrinho pelo prazo de 90 dias. A investigação apura se o grupo mantinha produtos apreendidos em galpões particulares sem autorização legal para posterior comercialização no mercado clandestino.

Em declaração sobre os desdobramentos da Operação Depositário Infiel II, o delegado afirmou estar tranquilo em relação às apurações e sustentou a legalidade de sua conduta profissional e patrimonial.

"Eu não devo nada. O que eu tenho foi conquistado pelo meu esforço próprio enquanto delegado de polícia."

 

Origem das investigações e mercadoria desviada

As apurações do Ministério Público tiveram início a partir da identificação de inconsistências na guarda de um lote de vergalhões de aço. A mercadoria, avaliada em R$ 400 mil, havia sido apreendida originalmente durante a Operação Fogo Amigo, realizada em 2021, em um contexto de apreensões totais que somavam R$ 1,4 milhão.

De acordo com os promotores, os vergalhões foram encaminhados para o depósito do empresário Silvio Dutra, conhecido como Carioca. O MPGO aponta que o local era utilizado de forma recorrente para estocar materiais recolhidos pela Decar, que posteriormente eram alienados e vendidos sem respaldo judicial. Os valores arrecadados seriam repartidos entre os suspeitos.

A apreensão do telefone celular de Carioca no decorrer das diligências revelou trocas de mensagens detalhando a negociação das cargas. Em depoimento, um dos investigados afirmou ter entregue uma sacola contendo R$ 200 mil a Alexandre Bruno para a compra de uma casa em condomínio fechado. O delegado rebatia a acusação pontuando que reside em uma casa simples de bairro.

 

Alertas oficiais sobre falta de estrutura física

A defesa de Alexandre Bruno apresentou documentos que comprovam que o policial informou a alta cúpula da instituição sobre a ausência de depósitos públicos para armazenar os produtos recolhidos nas ações policiais. O primeiro alerta formal ocorreu em 19 de maio de 2022, por meio de ofício direcionado à Superintendência de Polícia Judiciária.

No documento, o delegado registrou que a corporação não contava com estrutura própria e que dependia do auxílio de seguradoras e gerenciadoras de risco para a guarda temporária dos bens, alertando para o perigo constante de furtos ou deterioração dos materiais.

"A Polícia Civil não tem estrutura própria para a realização de armazenamento dos produtos, restando a prestação de serviços de empresas ligadas a gerenciamento de risco e seguradoras", citou o delegado no ofício.

 

Cronograma de providências adotadas pela delegacia

Segundo a defesa do servidor, o histórico de solicitações e providências adotadas ao longo dos anos demonstra a transparência da gestão e descarta hipóteses de dolo ou clandestinidade.

  • 17 de outubro de 2022: A Divisão de Assessoria Técnico-Policial respondeu ao pedido do delegado confirmando a inviabilidade financeira e a falta de espaço público para a contratação de galpões pela Polícia Civil.

  • 9 de janeiro de 2023: Diante da negativa de estrutura oficial, o delegado revogou todas as autorizações de custódia em pátios particulares existentes no âmbito da Decar.

  • Janeiro de 2023: O promotor responsável pelo controle externo da atividade policial foi convidado formalmente a inspecionar a sede da delegacia para atestar a precariedade do local.

  • Junho de 2024: Alexandre Bruno encaminhou representação com documentos ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) solicitando intervenção e destinação definitiva para as mercadorias acumuladas.

A assessoria do policial reforçou que o pátio mantido pelo empresário investigado já era credenciado antes de sua posse na titularidade da Decar e que o uso emergencial visava proteger o patrimônio das vítimas de roubo.

Em nota oficial, a Polícia Civil informou que a Corregedoria instaurou procedimento disciplinar para apurar as condutas dos servidores envolvidos na Operação Depositário Infiel II. A instituição destacou que o processo corre sob sigilo e que todas as ordens judiciais foram prontamente cumpridas no âmbito administrativo.

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