
A história do funcionalismo público e da diplomacia brasileira ganhou um capítulo inédito e marcante. A goiana Helen Jaine Gomes Borgens alcançou a aprovação no concurso público para admissão à carreira do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), tornando-se a primeira candidata do Brasil aprovada por meio de cota para quilombolas na disputa diplomática.
A conquista integra a aplicação prática da Lei 15.142/2025, conhecida como a nova legislação de cotas no serviço público federal. O texto legal atualizou as diretrizes de ação afirmativa do país, ampliando e fixando a reserva de vagas em certames federais para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas.
Helen pertence à comunidade quilombola do Retiro, localizada no município de Simolândia, na região nordeste do estado de Goiás. O edital do certame para a carreira de diplomata prevê vencimentos e salário inicial de R$ 22,5 mil, exigindo formação de nível superior em qualquer área do conhecimento e aprovação em rigorosas fases objetivas e dissertativas.
Nascida em Goiânia, Helen concluiu a graduação em Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG). A trajetória até o topo do serviço diplomático contou com momentos de incerteza no início da vida acadêmica. Durante os primeiros anos da faculdade, a estudante chegou a cogitar a troca de curso.
Contudo, por conselho de sua mãe, decidiu permanecer na graduação por mais um período letivo. A reviravolta ocorreu ao cursar a disciplina de Política Externa Brasileira, matéria que redefiniu suas metas acadêmicas e despertou a determinação para perseguir a diplomacia.
"Foi nesse período que cursei a disciplina de Política Externa Brasileira, que reacendeu meu interesse pelas Relações Internacionais e, com ele, a vontade de se tornar diplomata."
O incentivo primário para ingressar no Itamaraty havia surgido ainda na fase pré-vestibular, por intermédio de orientações feitas por um professor de curso preparatório.
Após concluir a graduação na UFG, Helen optou por retornar à sua terra natal, o município de Simolândia. No interior goiano, a recém-formada encarou os desafios logísticos da falta de redes de cursinhos preparatórios especializados e a limitação de acesso a materiais focados no exigente Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
Sem estrutura de ensino presencial voltada ao certame em sua região, Helen desenvolveu uma rotina autônoma de preparação. Ela imprimiu provas anteriores para analisar a estrutura do exame e estudou de maneira individual matérias complexas, incluindo o aprofundamento na língua inglesa e nas disciplinas específicas da carreira.
O esforço culminou na obtenção da única vaga reservada a candidatos quilombolas no processo seletivo em nível nacional. A publicação do resultado oficial confirmou a aprovação inédita na diplomacia brasileira.
Com a confirmação no certame, Helen mira agora a última etapa de formação e o topo da hierarquia diplomática. Os aprovados no concurso realizam um curso intensivo de formação com duração de três a quatro semestres no Instituto Rio Branco, em Brasília, antes do ingresso efetivo nos quadros e missões do Itamaraty.
Em declarações institucionais à UFG, a diplomata em formação revelou o orgulho de representar a população quilombola e projetou o desejo de alcançar o posto máximo da carreira no futuro, ocupando o cargo de embaixadora do Brasil.