
O psicólogo social Shalom H. Schwartz, criador da Teoria dos Valores Humanos Básicos, contestou publicamente a utilização de seus estudos para embasar a rejeição a candidatos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) em processos seletivos. A controvérsia teve início após a psicóloga e recrutadora Mara Suassuna, de Goiânia, citar a obra do acadêmico para defender que empresários evitem a contratação de profissionais de esquerda após o resultado das eleições.
Em posicionamento oficial, o pesquisador de 90 anos, que leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém, esclareceu que embora existam correlações entre prioridades de valores e opções ideológicas, a inclinação partidária de um indivíduo não interfere em sua capacidade técnica ou comportamental para o mercado de trabalho.
"As pesquisas sugerem que contratar apenas funcionários que compartilhem as prioridades de valores daqueles que já trabalham em uma organização pode ter efeitos prejudiciais sobre a produtividade da empresa. Essa prática pode levar ao ‘pensamento de grupo’, a menos inovação e a uma menor capacidade de lidar com mudanças nas circunstâncias", alertou Schwartz.
A intervenção do acadêmico ocorreu após ele ser provocado pelo professor de Filosofia da Universidade Federal de Jataí (UFJ), Marcos Carvalho Lopes. Ao acompanhar as declarações da recrutadora na imprensa goiana, o docente vislumbrou uma interpretação equivocada do referencial teórico e decidiu consultar diretamente o autor nos Estados Unidos e em Israel.
O docente da UFJ explicou que o uso de conceitos da psicologia para chancelar condutas de filtragem política acendeu um alerta ético. Segundo ele, teorias científicas consolidadas não podem ser instrumentalizadas para respaldar triagens que tangenciam a discriminação trabalhista.
A controvérsia começou quando Mara Suassuna publicou um vídeo em suas redes sociais relatando ter sido procurada por executivos e gestores interessados em contratar exclusivamente trabalhadores identificados com a direita. Na gravação, a profissional argumentou que a exigência não representaria preconceito ideológico, mas sim uma busca por convergência de princípios morais.
Em nota de esclarecimento enviada à imprensa, Mara reitera que alinhamento de cultura organizacional não se confunde com doutrinação partidária. A psicóloga sustenta que a compatibilidade em valores como ética, integridade e responsabilidade é legítima para fortalecer a confiança e o sentimento de pertencimento nas corporações.
A abordagem adotada pela recrutadora foi criticada por especialistas da área. A psicóloga Luísa Jaques Côrtes, especializada em psicanálise e análise do contemporâneo, classificou o discurso como problemático, ponderando que o uso da psicologia para chancelar exclusões ideológicas tende a reaparecer ciclicamente em períodos pós-eleitorais.
Por sua vez, a psicóloga Iara Caixeta Moreira, atuante na área comunitária e de garantias de direitos, destacou que a pluralidade no ambiente de trabalho enriquece as organizações. Para ela, reconhecer que pessoas com trajetórias e visões de mundo distintas podem compartilhar o mesmo rigor profissional é premissa básica da diversidade.
A legislação brasileira e o Código de Ética Profissional do Psicólogo vedam a indução de convicções políticas e a prática de discriminação. O regramento determina que seleções devem observar estritamente critérios técnicos.
O Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09), autarquia responsável pela fiscalização em Goiás, emitiu nota repudiando qualquer conduta discriminatória no acesso ao emprego. O órgão destacou que a prática descumpre preceitos da Constituição Federal, convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Lei Federal nº 9.029/1995.
O CRP-09 confirmou o encaminhamento do caso para apuração pela Comissão de Ética e instauração de procedimento disciplinar. A entidade ressaltou que as etapas probatórias ocorrem sob rigoroso sigilo legal, assegurados o contraditório e a ampla defesa aos envolvidos.