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Teórico citado por psicóloga de Goiânia rejeita veto a petistas em seleções e alerta para prejuízos à produtividade

Shalom H. Schwartz contestou o uso de sua teoria para justificar a exclusão de candidatos de esquerda por recrutadora em Goiás

Por: Cleyber Carlos
28/10/2026 às 10h40
Teórico citado por psicóloga de Goiânia rejeita veto a petistas em seleções e alerta para prejuízos à produtividade
Mara Suassuna é psicóloga e tem uma empresa de recrutamento profissional — Foto: Reprodução/Redes socias de Mara Suassuma

O psicólogo social Shalom H. Schwartz, criador da Teoria dos Valores Humanos Básicos, contestou publicamente a utilização de seus estudos para embasar a rejeição a candidatos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) em processos seletivos. A controvérsia teve início após a psicóloga e recrutadora Mara Suassuna, de Goiânia, citar a obra do acadêmico para defender que empresários evitem a contratação de profissionais de esquerda após o resultado das eleições.

Em posicionamento oficial, o pesquisador de 90 anos, que leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém, esclareceu que embora existam correlações entre prioridades de valores e opções ideológicas, a inclinação partidária de um indivíduo não interfere em sua capacidade técnica ou comportamental para o mercado de trabalho.

"As pesquisas sugerem que contratar apenas funcionários que compartilhem as prioridades de valores daqueles que já trabalham em uma organização pode ter efeitos prejudiciais sobre a produtividade da empresa. Essa prática pode levar ao ‘pensamento de grupo’, a menos inovação e a uma menor capacidade de lidar com mudanças nas circunstâncias", alertou Schwartz.

 

Origem da consulta ao teórico

A intervenção do acadêmico ocorreu após ele ser provocado pelo professor de Filosofia da Universidade Federal de Jataí (UFJ), Marcos Carvalho Lopes. Ao acompanhar as declarações da recrutadora na imprensa goiana, o docente vislumbrou uma interpretação equivocada do referencial teórico e decidiu consultar diretamente o autor nos Estados Unidos e em Israel.

O docente da UFJ explicou que o uso de conceitos da psicologia para chancelar condutas de filtragem política acendeu um alerta ético. Segundo ele, teorias científicas consolidadas não podem ser instrumentalizadas para respaldar triagens que tangenciam a discriminação trabalhista.

 

A polêmica e a posição da recrutadora

A controvérsia começou quando Mara Suassuna publicou um vídeo em suas redes sociais relatando ter sido procurada por executivos e gestores interessados em contratar exclusivamente trabalhadores identificados com a direita. Na gravação, a profissional argumentou que a exigência não representaria preconceito ideológico, mas sim uma busca por convergência de princípios morais.

Em nota de esclarecimento enviada à imprensa, Mara reitera que alinhamento de cultura organizacional não se confunde com doutrinação partidária. A psicóloga sustenta que a compatibilidade em valores como ética, integridade e responsabilidade é legítima para fortalecer a confiança e o sentimento de pertencimento nas corporações.

 

Análise técnica e restrições éticas

A abordagem adotada pela recrutadora foi criticada por especialistas da área. A psicóloga Luísa Jaques Côrtes, especializada em psicanálise e análise do contemporâneo, classificou o discurso como problemático, ponderando que o uso da psicologia para chancelar exclusões ideológicas tende a reaparecer ciclicamente em períodos pós-eleitorais.

Por sua vez, a psicóloga Iara Caixeta Moreira, atuante na área comunitária e de garantias de direitos, destacou que a pluralidade no ambiente de trabalho enriquece as organizações. Para ela, reconhecer que pessoas com trajetórias e visões de mundo distintas podem compartilhar o mesmo rigor profissional é premissa básica da diversidade.

A legislação brasileira e o Código de Ética Profissional do Psicólogo vedam a indução de convicções políticas e a prática de discriminação. O regramento determina que seleções devem observar estritamente critérios técnicos.

 

Investigação no Conselho de Classe

O Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09), autarquia responsável pela fiscalização em Goiás, emitiu nota repudiando qualquer conduta discriminatória no acesso ao emprego. O órgão destacou que a prática descumpre preceitos da Constituição Federal, convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Lei Federal nº 9.029/1995.

O CRP-09 confirmou o encaminhamento do caso para apuração pela Comissão de Ética e instauração de procedimento disciplinar. A entidade ressaltou que as etapas probatórias ocorrem sob rigoroso sigilo legal, assegurados o contraditório e a ampla defesa aos envolvidos.

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